Durante muito tempo, o açúcar foi tratado como o grande vilão dos dentes. Balas, chocolates, refrigerantes e sobremesas entraram no banco dos réus como se fossem os únicos responsáveis pelas cáries. Mas a história é mais curiosa do que parece: o açúcar participa do problema, sim, mas não age sozinho.
Um dentista conhecido nas redes como thebentistofficial explicou o tema de um jeito direto. “O açúcar não causa essas cáries”, afirmou. Segundo ele, algumas pessoas conseguem comer muito açúcar e, mesmo assim, quase não desenvolvem cáries. “Eu sei, é injusto”, brincou.
A chave do problema está menos no doce em si e mais nos moradores microscópicos da boca. As cáries são formadas por bactérias, especialmente uma chamada Streptococcus mutans, também conhecida como S. mutans. Ela vive na placa bacteriana e usa o açúcar como combustível. O resultado dessa refeição invisível é ácido, e esse ácido enfraquece o esmalte dos dentes, abrindo caminho para a cárie.
O dentista comparou a bactéria a um cupim. Assim como o cupim consome madeira, a S. mutans se aproveita das condições da boca para atacar os dentes. A diferença é que ela não precisa de martelo, broca ou qualquer ferramenta de vilão de desenho animado. Basta açúcar disponível, placa acumulada e tempo suficiente para o ácido agir.
O papel das bactérias
Ao nascer, um bebê não carrega a mesma comunidade bacteriana que terá ao longo da vida. A boca começa como uma espécie de território ainda não ocupado. Com o passar do tempo, esse microbioma oral vai sendo formado por contato com outras pessoas.
Segundo o dentista, beijos de familiares, compartilhamento de copos, talheres ou alimentos podem transferir bactérias da boca de um adulto para a criança. É aí que entra uma parte inesperada da história: a tendência a ter cáries pode ser “passada pela família”, mas não exatamente por genética. O que pode ser transmitido é parte do microbioma oral.
“Quando você nasce, não pode ter cáries ou doença oral nenhuma, você é uma tela em branco”, disse ele. Depois, quando a mãe, a avó ou outro familiar beija a criança ou compartilha bebida, pode acabar passando seu microbioma oral.
Se a criança recebe uma grande quantidade de S. mutans, pode ficar mais propensa a desenvolver cáries no futuro. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas parecem cuidar pouco dos dentes e, ainda assim, quase nunca têm cáries, enquanto outras escovam, evitam doces e continuam sofrendo no consultório.

As cáries são causadas pela bactéria Streptococcus mutans, que se acumula na placa bacteriana.
A transmissão entre crianças
A transmissão, porém, não acontece apenas dentro de casa. Pesquisadores da Universidade do Alabama em Birmingham, nos Estados Unidos, observaram que crianças também podem adquirir bactérias causadoras de cárie de outras crianças sem parentesco.
O estudo encontrou um dado chamativo: 72% das crianças analisadas carregavam pelo menos uma cepa de Streptococcus mutans que não aparecia em nenhum familiar que morava na mesma casa. Além disso, 40% das crianças não compartilhavam nenhuma cepa de S. mutans com suas mães.
A autora do estudo, Stephanie Momeni, explicou: “A literatura nos diz que geralmente adquirimos essa bactéria de nossas mães”. Ela acrescentou que isso ocorre porque, nos primeiros anos de vida, a interação com a mãe costuma ser mais frequente. “No entanto, nossos dados apoiam que crianças que interagem com outras crianças na escola ou em creches podem, e frequentemente conseguem, contrair essa bactéria umas das outras.”
Essa troca pode acontecer em situações comuns: dividir comida, beber no mesmo copo, compartilhar uma colher ou até colocar na boca objetos que passaram pela boca de outra criança. O açúcar continua importante na equação, porque alimenta a bactéria. Mas sem a presença desses microrganismos, ele não teria o mesmo efeito destrutivo.
A cárie, portanto, não nasce simplesmente de um bombom ou de um refrigerante. Ela surge de uma combinação entre bactérias, hábitos, higiene, alimentação e contatos ao longo da infância. O doce pode acender o pavio, mas quem constrói o estrago são microrganismos que muitas vezes chegaram à boca muito antes da primeira visita ao dentista.
