Quando tudo acabar, quem fica? Esse será o último sobrevivente da Terra

por Lucas Rabello
1 visualizações
Quando tudo acabar, quem fica? Esse será o último sobrevivente da Terra

Eles parecem criaturas inventadas para um livro de ficção científica: microscópicos, rechonchudos, com oito patas e uma aparência quase simpática quando vistos ao microscópio. Mas os tardígrados, também chamados de ursos-d’água, não ficaram famosos pela aparência. Ficaram famosos por algo muito mais impressionante: a capacidade de continuar vivos em condições que destruiriam quase qualquer outro animal conhecido.

Esses pequenos seres medem, em geral, menos de 1 milímetro. Vivem em ambientes úmidos, como musgos, líquens, sedimentos marinhos, água doce e até regiões congeladas. À primeira vista, parecem frágeis. Na prática, são verdadeiros sobreviventes biológicos, capazes de enfrentar desidratação extrema, frio intenso, calor, radiação, pressão esmagadora e até o vácuo do espaço por períodos limitados.

A fama dos tardígrados cresceu ainda mais depois de um estudo publicado em 2017 por pesquisadores ligados à Universidade de Oxford e à Universidade Harvard. O trabalho investigou quais formas de vida poderiam resistir a grandes catástrofes astrofísicas, como impactos de asteroides, explosões de supernovas e surtos de raios gama. A conclusão chamou atenção: entre os animais conhecidos, os tardígrados estão entre os candidatos mais prováveis a permanecer vivos até fases muito avançadas da história da Terra.

Pequenos animais com resistência extrema

tardígrados

O segredo dos tardígrados está em uma habilidade extraordinária: eles conseguem entrar em um estado de animação suspensa quando o ambiente se torna hostil. Nesse estado, conhecido como criptobiose, o organismo praticamente “desliga” suas atividades metabólicas. Ele perde quase toda a água do corpo, encolhe e assume uma forma seca e resistente, chamada de tun.

Nesse modo, o tardígrado não está vivendo como normalmente viveria, mas também não está morto. É como se colocasse a própria biologia em pausa, esperando que as condições melhorem. Quando volta a entrar em contato com água e encontra um ambiente adequado, pode se reidratar e retomar suas funções.

Essa estratégia ajuda a explicar por que esses animais resistem a cenários tão extremos. Experimentos já mostraram tardígrados sobrevivendo a temperaturas muito abaixo de zero, calor intenso por curtos períodos, doses elevadas de radiação e pressões altíssimas. Também já foram enviados ao espaço, onde alguns resistiram ao vácuo e à radiação solar direta por tempo limitado.

Isso não significa que eles sejam imortais. A resistência depende da espécie, do tempo de exposição, da intensidade do estresse e das condições do experimento. Ainda assim, quando comparados à maioria dos animais, eles parecem operar em outro manual de sobrevivência.

tardígrados

O estudo sobre o fim da vida na Terra

O estudo de 2017 não tentou prever qual indivíduo específico seria o último ser vivo do planeta. A pergunta era mais ampla: que tipo de organismo teria mais chance de sobreviver a eventos cósmicos capazes de causar extinções em massa?

Os pesquisadores analisaram três ameaças principais. A primeira foi o impacto de grandes asteroides. A segunda, a explosão de uma supernova relativamente próxima. A terceira, uma explosão de raios gama, um dos eventos mais energéticos do Universo.

Para eliminar completamente os tardígrados, não bastaria destruir cidades, florestas ou civilizações. Seria necessário ferver os oceanos da Terra, removendo a água líquida indispensável para sua recuperação. O estudo indicou que eventos capazes de fazer isso são extremamente improváveis nas condições atuais do Sistema Solar.

É por isso que os tardígrados aparecem como possíveis últimos sobreviventes entre os animais. Eles poderiam suportar catástrofes que extinguiriam humanos, mamíferos, aves, répteis, peixes e grande parte da vida complexa. Mesmo em um planeta devastado, alguns poderiam permanecer em nichos úmidos, profundos ou protegidos, aguardando condições melhores.

A ideia é desconfortável e fascinante ao mesmo tempo. Enquanto a humanidade depende de uma faixa ambiental estreita, com temperatura, oxigênio, alimentos e água em equilíbrio, os tardígrados conseguem atravessar períodos em que quase tudo parece biológicamente impossível.

Até quando eles poderiam sobreviver?

Apesar de sua resistência, os tardígrados também têm um limite. O inimigo final não seria necessariamente um asteroide ou uma explosão distante, mas o próprio Sol.

Com o passar de bilhões de anos, o Sol ficará mais brilhante e mais quente. Esse aumento gradual de energia deverá alterar profundamente o clima da Terra. Em algum momento, os oceanos começarão a evaporar em escala global, tornando o planeta cada vez mais hostil para qualquer forma de vida dependente de água líquida.

Nesse cenário distante, nem mesmo os tardígrados conseguiriam permanecer ativos. Eles podem sobreviver à falta de água por longos períodos em estado de dormência, mas precisam de água para retomar o metabolismo, alimentar-se e se reproduzir. Sem água líquida disponível em lugar nenhum, o ciclo se encerra.

Por isso, dizer que os tardígrados serão “os últimos sobreviventes da Terra” é uma forma resumida, e um pouco dramática, de apresentar a conclusão científica. O mais correto é dizer que eles estão entre os animais com maior chance de resistir a eventos extremos que eliminariam quase toda a vida complexa do planeta.

A força dessa história está justamente na escala. O ser humano construiu cidades, satélites, aceleradores de partículas e telescópios capazes de observar galáxias distantes. Mas, diante de certas catástrofes naturais ou cósmicas, talvez quem tenha a melhor estratégia de sobrevivência seja uma criatura quase invisível, escondida em musgos e gotas d’água.

Os tardígrados lembram que a vida nem sempre vence pela força, pelo tamanho ou pela inteligência. Às vezes, vence pela paciência microscópica, pela capacidade de esperar e pela estranha arte de quase desaparecer sem deixar de existir.

Veja também: