Sem picanha, sem problema: Essa carne conquistou os brasileiros, segundo açougueiros

por Lucas Rabello
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Essa carne conquistou os brasileiros, segundo açougueiros

Durante décadas, a picanha reinou quase sozinha nas churrasqueiras brasileiras. Bastava falar em churrasco para que ela aparecesse no centro da conversa, com sua capa de gordura, fatias generosas e status de corte nobre. Mas, aos poucos, outro pedaço do boi começou a sair do papel de coadjuvante e ganhar espaço nas grelhas: a ponta de peito.

Antes vista por muita gente como uma carne mais simples, a ponta de peito passou a chamar atenção por três motivos que pesam bastante na escolha do consumidor: sabor marcante, maciez quando bem preparada e preço mais amigável. Em tempos em que o churrasco precisa caber melhor no bolso, esse corte encontrou o momento perfeito para brilhar.

Retirada da parte dianteira do boi, a ponta de peito tem fibras mais firmes e uma boa presença de gordura entremeada. É justamente essa combinação que transforma a peça durante o preparo. Quando recebe calor com paciência, a gordura derrete aos poucos, espalha sabor pela carne e ajuda a manter a suculência. O resultado pode surpreender quem ainda associa cortes dianteiros a carnes duras ou sem graça.

ponta de peito.

O corte que saiu dos bastidores

A popularidade da ponta de peito também tem relação com uma mudança no comportamento dos consumidores. Muita gente passou a conversar mais com açougueiros, pesquisar formas de preparo e experimentar carnes que antes ficavam longe do carrinho de compras. Nesse movimento, cortes menos óbvios começaram a ganhar prestígio.

A ponta de peito virou uma dessas descobertas. No churrasco, ela funciona muito bem em preparos mais longos, com calor indireto e controle de temperatura. No forno, também entrega bons resultados quando assada coberta por algumas horas, permitindo que as fibras amaciem gradualmente. Já na versão defumada, lembra o famoso brisket americano, uma das carnes mais valorizadas no churrasco de cozimento lento.

A graça está justamente na transformação. Crua, a ponta de peito pode parecer uma peça rústica, quase sem o glamour da picanha. Depois de horas no fogo, porém, ganha textura macia, aroma intenso e fatias úmidas, daquelas que fazem a faca deslizar sem esforço.

Sabor, economia e paciência

O custo-benefício é um dos grandes motores dessa virada. Enquanto cortes como picanha, filé-mignon e ancho costumam aparecer com preços mais altos, a ponta de peito geralmente surge como uma alternativa mais acessível. Para famílias grandes, churrascos de fim de semana e reuniões com amigos, essa diferença faz a escolha ficar ainda mais atraente.

Mas não basta jogar a carne na grelha e esperar milagre. A ponta de peito exige tempo. Por ter fibras mais resistentes, ela não combina com pressa nem com fogo agressivo. O ideal é trabalhar com temperatura moderada, cozimento lento e, se possível, manter a peça protegida para preservar a umidade.

Nos temperos, a simplicidade costuma funcionar melhor. Sal grosso, alho, pimenta-do-reino e ervas frescas já são suficientes para valorizar o sabor natural do corte. Quem prefere um perfil mais defumado pode apostar em preparos longos na churrasqueira, deixando a fumaça agir como mais um ingrediente.

A ponta de peito não substitui a picanha por decreto, nem precisa vestir coroa para provar seu valor. Ela conquistou espaço porque entrega uma experiência generosa: carne saborosa, suculenta e com preço mais convidativo. Um corte que saiu das laterais do balcão para ocupar o centro da grelha, embalado pelo aroma lento de gordura derretendo e pela curiosidade de quem descobriu que churrasco bom também mora nos cortes menos óbvios.

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