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20 anos de Matrix: O que o filme lhe ensinou sobre filosofia sem você notar

Em maio deste ano, mais especificamente no dia 21, o filme Matrix completará 20 anos de seu lançamento oficial no Brasil. Nos Estados Unidos, no entanto, o filme já completou duas décadas de lançamento no mês de março.

Sucesso inquestionável e ganhador de diversos prêmios, o filme lançado em 1999 representou uma gigantesca quebra de paradigma no que se fazia em cinema há duas décadas, e se tornou uma verdadeira “bomba” justamente quando a humanidade estava entrando em um novo milênio.

Com sua temática moderna, com traços claros de ficção científica, ação, romance e uma grande dose de filosofia, o filme caiu nas graças da crítica e voltou a levantar em uma época totalmente estratégica uma série de questionamentos que há muito tempo permeiam a existência do ser humano e a nossa racionalidade.

O enredo de Matrix nos apresenta uma sociedade que conforme descoberto pelo protagonista Neo, uma espécie de hacker, está sendo enganada por um software extremamente inteligente que modifica arbitrariamente a realidade, com o intuito de apresentar um mundo “confortável”, em detrimento da dura verdade.

A partir das dúvidas de Neo sobre o fato de estar sendo enganado pelo próprio mundo em que vivia, e da consequente descoberta de que ele estava certo este tempo todo, algumas claras referências filosóficas aparecem no filme.

Imagem de Jonny Lindner por Pixabay

A relação entre o filme e a Alegoria da Caverna

Uma das principais referências filosóficas presentes na obra de arte de Lana e Lilly Wachowski é à Alegoria da Caverna, de Platão. Também conhecida como “mito” ou “parábola”, a história descrita por Platão fala sobre um grupo de prisioneiros que havia passado a vida inteira amarrado por fortes correntes em uma caverna. Logo atrás deles, conforme conta a narrativa, havia uma fogueira que queimava constantemente. Entre a fogueira e os prisioneiros havia uma parede, por trás da qual passavam homens carregando figuras de seres humanos, animais e outros objetos, que tinham suas sombras projetadas na parede localizada à frente dos prisioneiros. O único mundo que os prisioneiros da Alegoria da Caverna conheciam era o das sombras projetadas na parede. Sem saber que se tratavam, na verdade, de sombras, acreditavam que aquilo era tudo o que existia no mundo.

No entanto, Platão conta que um dos prisioneiros conseguiu escapar das correntes e se libertar da caverna, chegando a um mundo totalmente novo e desconhecido por ele. Seus olhos, em um primeiro momento, sofreram com o excesso de luz, mas pouco a pouco ele começou a ser capaz de apreciar a imensidão e a beleza do mundo exterior ao qual nenhum dos seus companheiros havia sido apresentado.

A partir de então, surge o grande dilema da parábola. Voltando para a caverna, ele provavelmente seria tratado como louco pelos demais prisioneiros, já que seria o único a falar sobre um mundo exterior estranho a todos os outros. Quem sabe o que poderiam fazer com ele caso desacreditassem na sua história? Seria, então, mais prudente, avisar aos seus companheiros sobre a existência de uma outra realidade, ou manter apenas para si esta incrível descoberta?

Em Matrix, a referência ao mito de Platão fica bastante clara desde o começo, quando o protagonista Neo percebe que, na verdade, está vivendo em mundo diferente do real, programado para parecer mais “prazeroso”. A partir de então, o filme passa a abordar justamente os dilemas que envolvem abrir mão de uma realidade que lhe priva dos malefícios de sofrer com a verdade dura, em troca de lhe enganar durante a vida toda com uma “ilusão conveniente”.

Wikimedia

“A ignorância é uma benção”.

A famosa frase, proferida em Matrix pelo personagem Cypher, e por tantos outros personagens em artistas em diversas obras literárias, musicais e cinematográficas, é o ponto principal do dilema provocado pelo filme. Até que ponto, por exemplo, seria vantajoso para uma pessoa se desconectar de todo o conforto da ilusão programada pela Matrix, para escapar do controle de uma eterna ilusão que engana a todos apenas pela conveniência?

A relutância de parte dos personagens vistos no filme em aceitar a existência da Matrix (ou a deixar de ser enganado por ela) pode ser observada também em nossa sociedade, ainda que de forma mais sutil, muitas vezes.

Estar ciente de todos os problemas que assolam a nossa sociedade, por exemplo, e empregar esforços no sentido de escapar de todas as alternativas que nos são oferecidas para deixarmos de pensar no que realmente é importante e urgente para a humanidade é um exercício extremamente difícil. Mas o questionamento levantado de forma quase subliminar pelo personagem Cypher é: Até que ponto é benéfico para a nossa própria existência conhecer a verdade nua e crua, se sabemos que ela não é tão confortável quanto a ilusão que nos oferecem? Não seria mais vantajoso, individualmente, passar a vida acreditando em uma mentira, sem saber que está sendo enganado?

Este é o sentido da frase que diz que, se olharmos por esta perspectiva, muitas vezes não estar ciente da realidade e ignorar o fato de estarmos sendo enganados pode ser uma espécie de bênção.

Mas e quanto ao mundo em que vivemos?

De volta ao mundo real, saindo da ficção científica, podemos certamente aproveitar os questionamentos de Matrix para alguns aspectos da nossa vida cotidiana.

Não podemos dizer, talvez, que a forma como estamos lidando com as redes sociais atualmente nos colocam quase em uma espécie de Matrix? Isto é, abrindo mão de viver nossas vidas de fato para projetarmos e usufruirmos de uma outra realidade criada pelos aplicativos?

Jaron Lanier, conhecido como um dos pioneiros e figuras mais importantes da tecnologia da Realidade Virtual, em entrevista à BBC, abordou este tema.

“As pessoas mais velhas, que já têm vários amigos e perderam contato com eles, podem usar o Facebook para se reconectar com uma vida já vivida. Mas se você é um adolescente e está construindo relacionamentos pelo Facebook, você precisa fazer a sua vida funcionar de acordo com as categorias que o Facebook impõe. Você precisa estar em um relacionamento ou solteiro, tem que clicar numa das alternativas apresentadas. Isso de se conformar a um modelo digital limita as pessoas, limita sua habilidade de se inventar, de criar categorias que melhor se ajustem a você mesmo”, disse Lanier à BBC.

O potencial das redes sociais em criar “realidades alternativas” fica evidente, por exemplo, quando surgem notícias como a de um garoto que propositalmente fingiu se rico no Instagram, como uma espécie de experimento social.

Será mesmo que o mundo que você nas redes sociais, ou até mesmo a forma como o mundo se apresenta para você fora delas, através de outras ferramentas, representa realmente a realidade?

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